Fotografia de um reservatório com solo seco e profundamente rachado pela seca, destacando um tambor de metal enferrujado deitado ao centro. Ao fundo, veem-se morros com pouca vegetação sob céu azul com nuvens.
Imagem do sistema cantareira durante a crise hídrica de 2014 | Foto: Mídia Ninja – Projeto: contadagua.org

As chuvas de setembro trouxeram um alívio temporário aos reservatórios da Região Metropolitana de São Paulo, elevando o nível do Sistema Cantareira de 33% para 33,7%. No entanto, esse volume recuperado não resolve a crise hídrica, uma vez que os mananciais permanecem longe de um restabelecimento pleno. Para gerir essa escassez, a estratégia principal adotada  pela Sabesp tem sido a Gestão de Demanda Noturna (GDN), que reduz a pressão da água nas tubulações por oito horas durante a noite. Ainda que a empresa destaque a economia de cerca de 193 bilhões de litros de água em um ano dessa prática, é urgente examinar quem realmente está pagando esta conta e se outras alternativas seriam possíveis.

Ouça também: “Cidade para todos – Rádio USP”

A diminuição da pressão afeta quase 70% da população paulistana, que enfrenta a falta diária de água durante o período noturno. Essa medida penaliza desproporcionalmente os moradores  de áreas altas e periferias, especialmente os  que não possuem caixa d’água para armazenar água.

Além da interrupção do fornecimento, quando a água retorna às torneiras, chega frequentemente suja ou sem pressão suficiente até mesmo para acionar chuveiros. Enquanto a população das periferias sofre o desabastecimento, os problemas estruturais de distribuição persistem: cerca de 30% da água tratada na região metropolitana é perdida. Essa perda ocorre predominantemente por vazamentos nas redes de tubulação, já que as ligações clandestinas e fraudes representam por volta de ⅓   do volume perdido.

Lições de 2014: incentivos financeiros e conscientização

Esse cenário contrasta diretamente com as medidas adotadas na crise hídrica de 2014-2015, quando a gestão combinou o controle de pressão a incentivos financeiros diretos para a redução do consumo. Naquele período, foi implementada uma campanha que concedia 30% de desconto na conta de água para os usuários que reduzissem o consumo médio em mais de 20%. Essa política gerou ampla adesão popular e alcançou uma economia de 11 bilhões de litros por mês no momento de pico. Para além da economia mensal  — comparável aos 15 bilhões de litros mensais obtidos via GDN hoje  —, a concessão de bônus promovia a conscientização e a mudança cultural no consumo. Atualmente, o consumo médio na região metropolitana atinge quase 150 litros diários por pessoa, valor superior ao limite teto recomendado de 110 litros. Aquela estratégia também previa a distribuição gratuita de caixas d’água para as populações desprovidas de reservatórios, garantindo melhores condições de infraestrutura doméstica.

A lógica da privatização e como o lucro dos acionistas barra estratégias de redução do consumo

A recusa atual em adotar campanhas que estimulam a redução do consumo se explica pela lógica de atuação da Sabesp como empresa privada. Com o foco voltado à garantia de retorno financeiro e lucro para a empresa e seus acionistas, a companhia evita conceder descontos tarifários que reduzam sua receita. Como o faturamento da empresa depende da venda por volume de litros, não há interesse comercial em incentivar a redução permanente do consumo de água pela população. Ao tratar o saneamento sob parâmetros puramente de mercado, o prejuízo da crise passa a ser diretamente dos moradores de SP, priorizando a rentabilidade corporativa em detrimento da justiça socioambiental.